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QUINTA-FEIRA, 12 de DEZEMBRO de 2019

FILOSOFIA E BELEZA

Uma breve introdução sobre a beleza na ótica da filosofia

O filósofo Roger Scruton afirma que a beleza deve ser defendida como um valor verdadeiro e universal

01 de dezembro de 2019

Vista aérea do centro e zona sul de Picos confere uma visão expansionista da cidade (Foto: Juscelino)

Por Bruna Bernardes

O filósofo britânico Roger Scruton brilhantemente apresenta essa questão tendo por base escritos de Kant e Platão. Por que a humanidade sempre buscou se expressar, desde os primórdios, através de estudos de arte, música, literatura, dança e arquitetura utilizando como instrumento essencial a estética?

O autor afirmava que a Beleza tem um valor maior do que a utilidade, ou seja, ela perpassa a necessidade imediata.

A potência da alma que convida o Ser à contemplação da Beleza é a Memória. Memoriza-se o que se acha Belo. Santo Agostinho fala da memória, da vontade e da inteligência como três potências distintas, porém inseparáveis, o que significa que a finalidade delas é buscar a Verdade.

A Trindade destes elementos humanos, sendo uma unidade constituída por coisas diferentes, porém inseparáveis, e o exercício delas faz com que o indivíduo tenha uma alma mais bela, boa e verdadeira e, consequentemente, a vida não somente interna, mas também externa, será bela. A relação entre a Alma e a Vida de tal indivíduo o tornará íntegro. A palavra integridade vem do latim de integrĭtas,ātis que significa ‘qualidade de ser inteiro’.

Dentre elas, onde está a Beleza e sua característica de Memória, intrinsecamente também tem relação com a inteligência e a moralidade. Isto posto, além das diversas formas de se admirar o Belo tendo em vista o modo de vida da contemplação como busca da felicidade, a Beleza da natureza seria uma das várias formas de se atingir o ideal de transformação da sociedade para melhor ao torná-la íntegra.

Kant dizia que há um gosto estético comum entre todos humanos além de que eles são os únicos seres que tem a faculdade da razão para fazerem juízos estéticos. Apesar de alguns viverem em um vácuo estético devido aos cálculos utilitários recorrentes do dia a dia, e serem privadas da apreciação das artes, elas são, no entanto, exercícios secundários do interesse estético. A Natureza, porém, leva a humanidade a fazer um juízo comum entre os seres, visto que ela é presente em todas as culturas e épocas, portanto o juízo de sua estética tem força universal.

A Natureza (ou mundo) possui uma constituição ontológica que pode servir ao homem, mas independe dele. A beleza da natureza é uma autonomia servil. Esse “servir” corresponde à humanidade na finalidade da contemplação do belo como um fim em si mesmo e não um meio de se atingir vantagens econômicas. Não se pode confundir essa premissa com o discurso ideológico de alguns autores em que o conceito de estética seria uma ideologia burguesa.

Portanto, adotar uma carga ideológica no conceito de estética é desvirtuar o seu valor universal e reduzi-lo ao mero modelo utilitarista temporal em que as pessoas não precisariam mais encontrar refúgio na contemplação da beleza. O interesse econômico, utilitário ou político colocaria a Beleza como item secundário. Quando se vê dessa forma não há porque valorizar o Belo, pois qualquer construção malfeita e grotesca que atingisse os fins necessários para a produção cumpriria seu objetivo, assim, a feiura seria mais comum nas cidades do que a beleza.

A realidade é que a contemplação do belo faz com que o indivíduo se torne, por um período prolongado, desinteressado nos próprios objetivos, afastando-se do narcisismo. A contemplação é um elemento distintivo da espécie humana e comum a todos, independentemente de quais sejam as condições sociais e econômicas em que se encontram.
A Beleza também serve de inspiração artística e cultural para enfatizar a paisagem local de determinada região. Os artistas que a exaltam fazem parte da formação da identidade cultural, portanto, fortalecem os laços de identidade e o sentimento de nação de um povo.

O Brasil é conhecido mundialmente pela excelente localização geográfica que formou a Floresta Amazônica e a Mata Atlântica. A contemplação da natureza brasileira inspirou inúmeras tradições locais, lendas, folclores que enriquecem e fortalecem os laços de seus habitantes.

Os exemplos mais clássicos são as obras de José de Alencar em Iracema e o nacionalismo utópico de Policarpo Quaresma que trazem ao imaginário do brasileiro a memória de pertencer a um mesmo ambiente belo e rico. Como exemplo do Piauí, não se pode esquecer-se do brilhantíssimo Da Costa e Silva ao descrever o estado com tamanho saudosismo e emoção deixando o leitor compadecido com seu lamento:

Saudade

Saudade! Olhar de minha mãe rezando,
E o pranto lento deslizando em fio…
Saudade! Amor de minha terra… O rio
Cantigas de águas claras soluçando.
Noites de junho… O caboré com frio,
Ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando…
E, ao o vento, as folhas lívidas cantando
A saudade imortal de um sol de estio.
Saudade! Asa de dor do pensamento!
Gemidos vãos de canaviais ao vento…
As mortalhas de névoa sobre a serra…
Saudade! O Parnaíba – velho monge
As barbas brancas alongando… E, ao longe,
O mugido dos bois da minha terra…

A lembrança da beleza da mãe rezando, o amor por sua terra, os gemidos dos canaviais, a claridade das águas parnaibanas e até o mugido dos bois transformam a paisagem territorial de Parnaíba palco de obras artísticas porque a memória do Belo trouxe ao autor contemplação desinteressada para onde seus objetivos individuais desaparecem diante da eternidade. Os singelos elementos mencionados no soneto, mesmo que não fossem alegres, mas trágicos, trariam, ainda assim, beleza em virtude das lágrimas de pranto motivadas por valores elevados de amor, saudade e memória (característica ligada ao que é belo) contemplação do ambiente.

Dada a importância da contemplação, não como elemento útil, mas como valor maior para a condução dos seres a ideais elevados de integridade, é oportuno lembrar de que é essencial se afastar tais conceito de quaisquer ideologias a fim de evitar perverter a característica de universalidade da Beleza.

As ideologias remetem a um conjunto de visões de mundo que orientam para ações sociais e principalmente políticas, portanto são limitadas pela temporalidade de vários aspectos como a existência ou não de classes sociais, de determinados locais, da cultura e até de instrumentos de dominação. Destarte, a visão meramente ideológica faz com que a Beleza tenha presença secundaria conforme o cumprimento dos interesses de determinados grupos.

A posição defendida neste texto é, no entanto, apenas exaltar o valor universal do Belo e dos benefícios de um ambiente bem preservado. Para Scruton, e Beleza é fundamental, pois ela exorta o indivíduo convidando-o a sair do seu narcisismo e a contemplar com reverência o mundo.

A degradação estética inicia-se na história quando se passa a isolar o presente da trajetória histórica dos antepassados a fim de retratar a realidade como ela é em virtude do receio de tornar a arte repetitiva, vazia, mecânica ou clichê. Scruton chama essa decisão de fuga da beleza. O resultado deste problema é então a construção de ambientes eminentemente funcionalistas e desapegados à valorização do Belo.

Neste contexto o Brasil ainda padece de vários males como desigualdade, pobreza, violência, fora os antecedentes históricos que fazem parte e movem o inconsciente do brasileiro. Esses antecedentes históricos fizeram com que o espaço urbano crescesse de forma desregulada, desleixada, sem observação do valor do Belo, apenas do valor utilitário.

Portanto, faz-se necessário que nós cidadãos voltemos o olhar à contemplação do que há de Belo, digno, honroso e virtuoso tanto nas qualidades dos nossos artistas e antepassados que deixaram legado na humanidade quanto ao que o Criador nos deixou para nosso deleite visível. O amor ao sagrado.

É necessário ver beleza na simplicidade dos pássaros, na harmonia da nossa vegetação e na saudade que os nossos pais e avós nos deixaram de legado. Como no livro “O Pequeno Príncipe” de Antoine de Saint-Exupéry quando a raposa, cativada pela amizade do principezinho falou: “Vês lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. (…) Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo…”. Ou quando no livro bíblico Cântico dos Cânticos o autor utiliza de vários elementos naturais em metáfora para demonstrar o quão encantado está pela beleza da amada.

REFERÊNCIAS
AERTSEN, Jan. A tríade ‘Verdadeiro-Bom-Belo: O lugar da beleza na Idade Média. Viso: Cadernos de estética aplicada, Alemanha, 8 jul. 2008. Disponível em: http://revistaviso.com.br/pdf/Viso_4_JanAertsen.pdf. Acesso em: 8 jul. 2019.

AGOSTINHO, Santo. A Trindade. Tradução do original latino e introdução de Agostinho Belmonte; revisão e notas complementares de Nair de Assis Oliveira. São Paulo: Paulus, 1994.

ARISTÓTELES. “Tópicos. Dos argumentos sofísticos. Metafísica: livro I e livro II. Ética a Nicômaco. Poética”. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Os pensadores, 4).
Da Costa e Silva, em “Grandes Sonetos da nossa Língua”. [organização e seleção de José Lino Grünewald]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.
HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1993.

SCRUTON, Roger. “Beleza”. Tradução: Carlos Marques. Oxford: Guerra e Paz, 2009. 297 p.

WILDE, Oscar. O retrato de Dorian Grey. Tradução: Paulo Schiller. 1. ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012. em:https://www.companhiadasletras.com.br/trechos/85056.pdf. Acesso em: 8 jul. 2019.
TOLLE, Eckhart. O poder do agora. Rio de Janeiro: Sextante, 2012.

Obra de Arte com o tema o nascimento de vênus é objeto de análise filosófica (Foto: Divulgação)

Aguarde publicação do texto ampliado.

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