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TERÇA-FEIRA, 19 de JUNHO de 2018

CULTURA

O doutor e o gigante

Texto premiado no concurso literário cidade do Rio de Janeiro.realizado, em 2012, pela editora Taba Cultural. A leveza e o bom humor concorre para o leitor o aprecie como literatura e diversão

06 de Março de 2017

GILSON CHAGAS

…………..
O editor, com um pente verde à mão esquerda, distribui, distraído, alguns fios loiros no vão calvo que lhe divide a cabeleira escassa. Enquanto parece regalar-se com o “exercício”, explica ao estreante os requisitos da tarefa a ser cumprida:
– Veja, gigante, você deve fazer uma reportagem com a cara do jornal. Isto é, com originalidade, precisão, riqueza de informações e o resto.
– Que resto, Dr. Nemésio? – indaga-lhe Kinzão, constrangido. Primeiro, pela referência infame à sua baixa estatura, implícita no apelido com que o debochado o saudava. Segundo, pelo receio de que o homem percebesse – e até superdimensionasse – sua ignorância para com a linha editorial do tabloide, que, bem ou mal, acabava de lhe abrir as portas, acolhendo-o em suas páginas e – melhor – na lista de “ajudas de custos a colaboradores”.
Quanto ao título de “doutor” que, afobado, deixara escapar, vinha da posição desvantajosa em que ali se encontrava. É verdade que não conhecia qualquer dado curricular daquele atrevido, exceto que a partir de então seria seu chefe imediato no jornal. O tratamento pomposo saiu, pois, pelo critério da dúvida: errar no varejo para acertar no atacado…
_ Como “que resto”?! – inquire-lhe o editor, manifestando estranheza. Mantenha a ousadia e o tempero agressivo, presentes em nossos conteúdos. Digamos: o algo mais que distingue a “casa” junto à clientela. Mas cuidado: esse viés assim… mais picante deve ficar bem costurado nas entrelinhas, diluído no texto com sutileza e perícia Outra coisa precisa ficar aqui cristalina: na reportagem você tem que furar espetacularmente os concorrntes.
Kinzão tem um calafrio:
– Furar os concorrentes?!…
– Sim, surpreender; dar a notícia em primeira mão! Ih, você parece foca! (risos).
O rapaz pensa ainda indagar sobre o “público-alvo”. Citar expressão da moda, arrotar conhecimento técnico. Contém-se: a bravata poderia virar um tiro no pé, ensejando derivações e interrogatórios intelectuais que ele não tinha como bancar. Reduz o glamour da pergunta:
– A quem a matéria se destina?
O homem, dessa feita, dispara com acidez:
– Ora, papai, a gato e cachorro, literalmente!. Digo, a todo criador ou simpatizante de cães e gatos e ainda àqueles que, por razões compreensíveis ou não, se interessam por essas curiosidades animalescas.
E refaz-se, amaciando as palavras:
– Ou melhor, que apreciem essas particularidades de natureza científica.
Kinzão dá o diálogo por encerrado. O clima tornara-se cáustico. Às ironias do chefe, juntava-se a impaciência: aquele “papai” era-lhe a senha final. Pois, além de inexistir qualquer parentesco entre eles – nunca o tinha visto mais gordo – algumas continhas básicas não fechavam. O editor, bem mais alto do que ele, devia ter o dobro dos seus vinte e um anos e era de pele branco-rosada, contrastando com aquela sua cor, que os escarnecedores classificam como “de formiga de roça”. Ali, de pé e confuso à frente da mesa, o estreante conversava com o homem, que, sentado no lado oposto, mirava-o diretamente nas pupilas.
………
O fato é que o tabloide Terceiro Olho, em que o moço acaba de ser admitido como “free lancer”, encomenda-lhe, como “missão de batismo”, uma reportagem, “tão detalhista quanto audaciosa”, sobre as populações caninas e felinas da cidade. Caberia a ele retratar, “com argúcia e propriedade”, caracteres físicos e psíquicos dos dois grupos, com destaque para as diversidades de ambas as espécies, e, dentro de cada uma, “nuances” do temperamento e a “ética” de seus indivíduos. O desafio crucial seria investigar “com o máximo rigor científico” a origem, ou pelo menos os motivos conhecidos, das turras ou conflitos recorrentes que, conforme explica o chefe, “desde tempos imemoriais azedam as relações entre esses vizinhos, tão próximos e, ao mesmo tempo, tão separados”.
……..
A euforia da admissão lhe tirou algumas horas de sono. Sobretudo porque, ao extravasá-la para Zé Ninga, o primeiro confidente a cruzar-lhe a estrada naquela tarde, o amigo lhe jogou um pote d`água no ânimo:
– Veja, Kinzão, não quero soprar inhaca em sua roda de samba, mas ou essa pauta é trote aplicado a novatos ou lhe meteram numa sinuca de bico.
……
Conquanto intrigado com o “gosto ruim” de Zé Ninga e, ao mesmo tempo, com o interesse da redação por tema tão singular, festejou, no íntimo, a oportunidade. Afinal, estava ali seu primeiro emprego, que, mesmo não sendo exatamente um emprego, era a primeira vez que alguém se dispunha a pagar algum por seus serviços. Urgia inaugurar o bolso, interromper a sina de quebradeira; os vínculos formais e a regularidade da remuneração podiam esperar momento mais propício.
Além disso, embora a maratona, à primeira vista, se mostrasse extensa e nebulosa, a tarefa certamente lhe daria fôlego para livrar-se de um pesar que o incomodava como focinheira. Sua….(relutante, admite) incompatibilidade com cachorros vazara para onde não devia e chegou, potencializada, aos ouvidos errados. Desde então isso lhe vinha acarretando graves prejuízos. Até que o contingente de bichanos – em especial a ala feminina – aninhava-se com liberdade em seu peito. – “sempre aberto aos mimos desse gênero. (propagavam, com malícia, seus desafetos). Mas cachorros, decididamente, não bafejam em canis de sua alma”(completavam eles sem reservas).
Ora, tal inconfidência teria dado causa à declaração pública de guerra que lhe fizera Gardênia Esmeralda, decantada adestradora de cães afoitos com casa ou trânsito nas redondezas. Contaminada pelo veneno inimigo, a gata tornara-se alérgica a seus contatos ou presença, a ponto de se queixar de arrepios ao deparar-se com ele, como presa à vista do predador.
Agora, contudo, o rapaz via nascer um fio de esperança: essa matéria jornalística lhe agregaria argumentos para provar àquela flor preciosa que tudo não passara de cachorrada, feita por meia dúzia de gatos-pingados, para eliminar concorrente nas caçadas noturnas. Não via, pois, a hora de cortar as unhas dos linguarudos que lhe arranharam a imagem, alijando-o da disputa pela guarda da felina, de olhos verdes, mais assanhada e escorregadia daqueles telhados.
Num rompante irresistível, parafraseou Castro Alves, bradando para seus botões:
– Cachorros, gatos de uma figa, tremei! Kinzão sai a campo! Lata quem latir; mie quem miar! Barulho pouco é bobagem. Logo, logo, entro na área e, se me chutarem o calcanhar, vão aprender, afinal, com quantas cavadinhas os “gigantes” cobram pênalti.

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GILSON CHAGAS é Mestre em Ciências Empresariais/Contabilidade, Especialista em Auditoria e bacharel em Ciências Contábeis. Tem cursos profissionalizantes em jornalismo e comunicação em rádio e estudos extensivos em teologia e outras áreas. Atualmente é Professor de Ciências Contábeis e gestão de tributos da e Faculdade Processus, em Brasília –DF. É escritor com 11 livros publicados, até aqui.

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